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Viagem Mística, em Busca do Sagrado

Viagens místicas são estados incomuns de consciência, chamados de experiência de pico, experiência culminante, experiência de transcendência, iluminação, estados de consciência transpessoais ou espirituais, etc. – todos integrados em um processo amplo conhecido como expansão de consciência. O conjunto dos estudos a respeito de viagens místicas, principalmente as pesquisas sobre o que aparece como possibilidades inexploráveis do ser humanizado ou ser humano, provam que são estados de consciência expandida – faculdades inatas do ser humanizado.

Desde os primórdios dos tempos, culturas ancestrais desenvolveram, ao longo de sua história, ensinamentos e práticas espirituais que permitiam transcender a realidade convencional e experimentar a realidade além dos cinco sentidos – uma realidade que prescinde das noções de tempo, espaço e causalidade, e permite transcender a visão de um mundo ordenado e estável. Os ritos de passagem, baseados em antigos mistérios do nascimento e da morte, praticados no Egito, Grécia, América Central e outros lugares do mundo, evidenciam que, nos estados de consciência expandida, pode-se fazer incursões ou viagens em outros reinos, em mundos sutis, muito além dos limites dos nossos cinco sentidos. Para Drouot/1998, “os viajantes da consciência da pré-história foram os primeiros exploradores e os primeiros cartógrafos das nossas paisagens interiores”.

As experiências de “iluminação” vividas por Krishna, e por Sidharta – o Buddha, as experiências místicas vividas por Maomé e por Saulo de Tarso, bem como, muitos dos grandes da humanidade, religiosos, artistas e cientistas, como Leonardo Da Vinci, Bach, Einstein, Heisenberg, Gandhi, Luther King, dentre outros, viveram experiências marcantes em estado de expansão de consciência, através do qual fizeram viagens místicas. Segundo seus próprios relatos, essas viagens lhes proporcionaram vivências do Sagrado, do Absoluto, que mudaram suas percepções e sua maneira de ver, perceber e sentir o mundo.

Falando de sua própria experiência, Einstein relata que “em tais momentos, imaginamos que estamos num pequeno ponto de um pequeno planeta, olhando maravilhados para a fria e, no entanto, profundamente comovedora beleza do eterno, do incomensurável: vida e morte se fundem em uma só e não há evolução, nem destino, apenas existência!”

Embora tais práticas ancestrais, encontradas em todas as épocas, sejam consideradas, por muitos, como um estágio primitivo de religião, e para outros como patologia esquizofrênica, para muitos outros, no entanto, “trata-se de um estado extremamente elaborado de consciência – uma chave preciosa que os seres humanizados desenvolveram para compreender o meio ambiente e viver harmonicamente com ele. Mas, o movimento da humanidade seguiu uma dupla força de recuo e de progresso. Por um lado, a diminuição gradual da comunhão direta com Deus, com a natureza, com os poderes cósmicos; por outro, o desenvolvimento ativo da inteligência e da razão que, em seguida, levou à influência material do ser humanizado sobre o mundo.

Assim, em um mundo, onde a multiplicidade das experiências cognitivas é reduzida à única realidade de nosso estado vigil, dito normal, a necessidade de tornar presente o “sagrado”, no “profano”, desapareceu. Essa necessidade que, no passado, permitiu a interiorização através de rituais e a realização do desejo de fusão com o universo, com outras realidades, ficou esquecida na noite dos tempos. E, privado do imperativo transcendente, o ser humanizado de hoje tem muita dificuldade em ultrapassar as provas e vicissitudes da vida. Apavorado pelo fantasma da falta de eternidade, e não podendo mais autenticar sua existência, exceto pelo sofrimento, ele passou à experimentação quase massiva de drogas lícitas e ilícitas de todos os tipos.

Do movimento beatnick, em que o jovem se coloca contra o mundo e, em fuga, parte sem rumo montado numa moto, surgiu o movimento hyppie nos anos 60. Esse movimento seduziu grande parte dos jovens mundo afora, por rejeitar os valores morais e sociais estabelecidos, exaltando as novidades fundidas no amor – a não-violência, o pacifismo, a liberdade.

Entretanto, as razões místicas que os impulsionaram, rapidamente, cederam lugar à perspectiva de encontrar facilmente drogas, que permitissem a “viagem” onde estivessem. Assim começa a dependência química! No dizer do Dr. Atlan/1979, “durante uma viagem, (através da droga) se ele alcança uma experiência de uma tal transcendência, então esse desejo que sempre acompanhou o ser humano (humanizado), se torna às vezes mais preciso, menos confuso e mais pressionante. Dessa forma, parece que o desejo de transcendência é mantido e reforçado pela lembrança da experiência que teve. Assim, ele cai na armadilha de seu desejo, que se transforma em necessidade dolorosa de suprir uma falta, onde a vida e a morte estão entrelaçadas”.

É importante lembrar que a droga, que para um xamã com sua consciência do sagrado, é um meio de abertura à vida, ao infinito, por falta de consciência do sagrado, dessa conquista espiritual que guiou nossos ancestrais, o drogado não experimenta a iluminação mística; pois, ela se torna delírio psicótico e a transcendência ou busca do sagrado se torna dependência química.

Todavia, não podemos nos esquecer que, ao utilizar drogas, inconscientemente, o ser busca uma lembrança inefável de um tempo em que comungava diretamente com as forças do espírito. Essa lembrança pode mudar de forma, essa busca pode mudar de meio; mas continua como a nostalgia inesgotável do espírito. Nesse universo há, desde jovens à procura de aventuras e experimentações movidas pela curiosidade, até adultos em busca de alívio para seus tormentos.

Apesar de o processo de desenvolvimento humano, necessário à nossa adaptação à vida neste planeta, nos separar, e nossa consciência se tornar alienada do espírito que somos, esta é uma memória que jamais é totalmente esquecida. Por isso, em todos os níveis da consciência, a força motivadora mais profunda, na nossa psique, é o anseio de retornar à vivência do ser espiritual que somos.

Nos estados de consciência, nos quais as viagens místicas ocorrem, os sentimentos de separação e de egoísmo desaparecem para dar lugar a sentimentos de unidade, de identificação planetária e cósmica, gerando outros sentimentos mais amplos, de “sinergia” com todos os seres, a partir do desenvolvimento de uma sinergia consigo mesmo; pois, “o universo ignora a censura entre o sagrado e o profano, entre o visível e o invisível, entre o mundo dos deuses e o dos humanizados. Tudo é sagrado, tudo é espiritual, tudo é cósmico.” (Código Florentino)

Do livro: “Uso de Drogas e Busca de Transcendência”, 2020

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