A Mãe do Ouro

Nos tempos da minha infância, numa pequena vila do interior do Estado do Espírito Santo/Br, quando a televisão era um luxo que só os ricos podiam ter e que internet, vídeo game, celular, smartfone ainda não existiam nos nossos rincões, meu pai sentava-se na calçada ao anoitecer e, com seu acordeon, dedilhava lindas e inesquecíveis melodias – um chamado aos vizinhos que, aos poucos, iam chegando.

Entre uma música e outra, eles contavam histórias engraçadas de suas experiências e de algum conhecido, todos afeitos ao labor da terra. Às vezes, inventavam casos nada engraçados, exagerando nos suspenses de histórias horripilantes sobre fantasmas, assombrações e almas penadas. As crianças, sentadas na grama, ouviam esses “causos” e histórias, com um misto de encantamento e medo. Muitos deles eram de arrepiar, pois falavam de casas mal assombradas, fantasmas, cemitérios e defuntos que se levantavam das sepulturas, para assombrar transeuntes desavisados. Sabiamente, ninguém questionava se essas histórias iriam traumatizar ou provocar algum dano psicológico nas crianças.

Quando os vizinhos iam embora, meu pai ficava olhando o céu e nos apontava a estrela d’Alva – planeta Vênus, Marte – o planeta vermelho, o Cruzeiro do Sul e a Via Láctea. Nesses momentos, sempre víamos “estrelas cadentes” riscando o céu de dourado e, de vez em quando, uma luz mais brilhante, que ele dizia ser a “Mãe do Ouro”, atravessava o céu e ia se esconder por detrás de uma pedra de mais ou menos mil metros de altura, próxima à vila. Ele nos dizia que, naquela pedra, estavam escondidos potes de ouro que ninguém podia tocar porque, por ordem divina, eles eram muito bem guardados e protegidos por ela – a “Mãe do Ouro”.

Como toda criança curiosa, depois de ouvir essas histórias, passei a vigiar o céu à noite, hábito que conservo até hoje, para ver a Mãe do Ouro. Às vezes, eu e minha irmã Isabel víamos uma outra luz brilhando intensamente, ora verde ora vermelha, que pairava acima daquela pedra e descia, como uma enorme fita de luz, parecendo um cilindro, até desaparecer, aos nossos olhos, por detrás da pedra; ou, como dizia meu pai: “a luz desaparece por dentro da pedra!” E ainda nos explicava que eram “discos voadores trazendo extraterrestres, que vinham conferir se o ouro estava bem guardado!” Um dia perguntei-lhe: por que ninguém sube a pedra para encontrar o ouro?! Sua resposta ainda ecoa vivamente em minha memória: “O ouro está guardado e bem protegido, porque são sementes de amor que, um dia serão espalhadas pela Terra, e o ser humano aprenderá a amar!” Então, em meu coração de criança, conclui que são os extraterrestres que vão nos ensinar a amar.

Durante toda a sua vida, meu pai manteve esse costume de olhar o céu à noite, enquanto fumava na varanda da nossa casa. Às vezes, isto acontecia de madrugada; pois ele tinha o hábito de se levantar às quatro horas. Lembro-me de uma madrugada do ano de 1965, quando ele nos acordou para ver o que disse ser um lindo cometa que atravessava o céu, com sua longa cauda luminosa. Esses fenômenos nos encantavam e aguçavam nossa imaginação, deixando-nos fascinados, na contemplação do céu estrelado, acima das nossas cabeças!

Hoje, sei que o que ele vira naquela madrugada não era um cometa. Aos nossos olhos, o movimento de um cometa é quase imperceptível. Além disto, li recentemente que os astronautas, James Mc Divitt e Edward White, da Missão Gemini IV, disseram ter visto, no período de 13 a 17 de junho de 1965, um OVNI com uma cauda parecida com a de um cometa.

O tempo passou e foram esses momentos de convívio afetivo saudável, essas maravilhosas lembranças que sempre estiveram presentes em minha mente e coração, que me protegeram do medo, quando anos mais tarde, voltei a ver discos voadores pousarem bem próximos na natureza ou zigue-zaguearem no céu. Por isso, nunca olho para o céu, simplesmente por olhar; pois sei que eles nos veem e, muitas vezes, em sonhos, falam conosco. Assim, conservo eu o respeito e o encantamento que sempre tive pela natureza e pelo céu, da “Mãe do Ouro”, que ainda encanta e estimula a minha imaginação.

(Extraído do livro “A Saga de um Sábio”, de Isis Dias Vieira, págs 146 a 148)

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