DEUS – O Dia que Nos Faz Ver!

Ao ensinar a Oração do Pai-Nosso aos discípulos, Jesus começa falando de um Pai nosso que está no céu. Mas, quem é esse Pai nosso a que Jesus se refere? Deus, Cristo, arcanjo ou outro ser pertencente à hierarquia divina?

Estando essa oração presente em nosso inconsciente coletivo, desde os primeiros séculos da nossa era, quando nos referimos ao Pai nosso que está no céu, pensamos imediatamente em Deus.

Ao longo de milhares de anos de utilização inadequada, a palavra Deus tornou-se vazia de significado. Quando a pronunciamos, criamos uma imagem mental de alguém ou de uma entidade exterior a nós. Tenho percebido, há alguns anos, que jovens e adolescentes, ao entrar em contato com a teoria evolucionista de Darwin, afirmam entre si, que não creem em Deus. Às vezes, pergunto: que Deus é esse que vocês não creem? Inicialmente, respondem que não creem porque ele não existe; mas, não sabem responder exatamente em que e porque não creem, embora deixem claro que se trata do deus das religiões.

São exatamente esses conceitos de um Deus guerreiro, vingativo, que pune os maus e dá a vitória aos bons, que abençoa com bens materiais, ao mesmo tempo em que diz que você deve abandonar tudo para segui-lo, que deram origem a crenças, a afirmações tais como o nosso Deus é o único Deus verdadeiro e à famosa frase do filósofo Nietzsche, “Deus está morto” – afirmações estas que confundem a mente dos nossos jovens.

Quando éramos crianças, criamos uma imagem de Deus como um velhinho de barba branca, parecido com um papai Noel, pendurado nas nuvens. Às vezes, principalmente nos momentos de desobediência aos nossos pais, o imaginávamos nos repreendendo com forte voz de trovão. Inevitavelmente, esse Deus, em quem não acreditamos, nem confiamos mais, correspondia a alguém ou alguma coisa do sexo masculino.

Segundo o Tao-Te-King, um dos livros mais antigos e profundos já escritos, o Tao ou o caminho é definido como o infinito, a energia eternamente presente, a Mãe do Universo. No final, todas as criaturas e todas as coisas voltam à fonte; ou seja, todas as coisas se desfazem no Tao; só ele permanece. Então, a fonte divina, criadora de todas as criaturas e de todas as coisas, é feminina – a Deusa ou Mãe Divina que tem dois aspectos: dá e tira a vida que temos; mas a vida que somos volta ou se reintegra a essa fonte, quando nossa caminhada aqui terminar.

Quando nosso mental racional se desenvolveu e o ego ou personalidade passou a governar a vida humana, os seres humanizados perderam contato com a realidade da essência divina, deixaram de viver Deus e começaram a pensar sobre Deus como uma entidade, uma figura masculina e exterior a nós. A partir daí, o mundo, a sociedade, inclusive as mulheres passaram a ser dominados pelos homens. E, mais uma vez, nisso não há bem, nem mal; pois se trata de uma etapa evolutiva para a humanidade neste planeta. De qualquer forma, é importante assinalar que o modo de funcionamento inferior da nossa mente é essencialmente masculino; pois, nesse nível, em geral a mente resiste, julga, briga pelo controle, usa, manipula, agride, tenta se apoderar e possuir.

Entretanto, simbolicamente, o masculino representa a construção, a ação no mundo físico e exterior que, definitivamente, está em evolução. Também, o masculino é o semeador; pois contém a semente que, sendo plantada em terra fértil, forma nas profundezas do feminino, a unidade que permite a descida de uma “unidade de consciência” ou espírito ao planeta Terra.

Por isso, o Deus tradicional, como sugere o Antigo Testamento, é patriarcal, autoridade controladora, geralmente furiosa, do qual devemos ter medo. Esse Deus é uma projeção pesada e rígida da mente humana, em seu modo de funcionamento racional e inferior, no sentido linear céu/terra, interior/exterior.

Mas, ao nos dirigirmos ao nosso Pai, devemos fazê-lo com a consciência do reino do sagrado, da infinita imensidão que nossa mente, em seu funcionamento inferior, racional, jamais é capaz de alcançar. As palavras são contaminadas com interpretações da nossa mente racional e não definem nem explicam o que é indefinível e inexplicável; apenas reduzem o invisível infinito a uma entidade finita. É impossível formar uma imagem mental a esse respeito. Quem tem uma experiência profunda de harmonia, de encontro consigo mesmo, reconhecendo-se espírito, tem um vislumbre dessa luz; mas não consegue comunicar essa experiência com palavras.

Para irmos além do poder da mente e nos religarmos à profunda realidade do ser espiritual que nos habita, necessitamos desenvolver qualidades muito diferentes das citadas acima, tais como: desapego, não julgamento, amor, generosidade, entrega, abertura à vida, não resistência, aceitação, sinceridade, clareza, flexibilidade, sensibilidade, capacidade de integração e inclusão – qualidades estas muito mais próximas do princípio feminino.

Segundo Jean-Yves Leloup, em “O Anjo como Mestre interior”, p. 89, a palavra Deus vem do Latim “dies”, que significa dia. Por isso, devemos procurar ver o dia, não apenas as coisas: “ver o dia no qual as coisas aparecem; ver o espaço no qual as coisas acontecem – essa luz que não podemos ver, mas que nos faz ver”.

Texto extraído do livro “A Oração do Pai-Nosso – O Mantra da nossa Libertação”, de Isis Dias Vieira, 2013, pp. 131 a 134. Editora Biblioteca 24 Horas.

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